Porto de Araújo
(Guinga e Paulo César Pinheiro)
Hoje eu vou-me embora
Oh mãe
Estrela nova já azulou de manhã
Por favor, não chora
Oh mãe
Que eu tô levando em teu surrão
De artesã
Cordão de prata, cruz de ouro
O teu talismã
Quem me acompanha
Oh mãe
É Nanã
Se eu sair agora
Oh mãe
Chego no Porto de Araújo amanhã
Vou pro mundo afora, mãe
Ganhei a roupa de marujo da irmã
Linho engomado
Boné branco
Gola azul de lã
Quem me acompanha
Oh mãe
É Nanã
Vou antes do sol quebrar
Pra ouvir o canto do guriatã
Que fez seu ninho
No meu quarto
De telha vã
Vou mas também vou levar
Manta de charque
Mel de irapuã
Mana, eu prometo
Que te escrevo
Toda manhã
Tô em cima da hora
Oh mãe
O meu cargueiro zarpa
às seis da manhã
Bença pra senhora
Oh mãe
Tome “tenção”
Por nossa mãe, minha irmã
Um dia eu volto
Trago inteiro o teu talismã
Quem me acompanha
Oh mãe
É Nanã… é Nanã… é Nanã…
Oh mãe!
Atropelando colcheias,
alimentando claves de sol
com fusas,
com algo assim
como notas de mim
em mi,
resvalo o fio
que vai do infinito ao zero
e quero
diminutas dissonâncias,
que desfiem
em si
a roupa
do óbvio.
A estrada passa na retina onde dormiu a noite;
há sonhos adiados ao sol e notas deliquescentes na rota dos dias.
A linha entre nós e o destino desmente os mapas
em nós que escapam do rumo previsto no viés da paisagem.
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