Entre eu, você e o Mallarmé de Manet, o grave silêncio das folhas em branco grava o momento preciso que vejo e repito em um olhar dividido entre o tempo e além, como se o não dito super evidente roubasse os sentidos e nos deixasse reféns de um perplexo absurdo. Entre eu e você, O Mallarmé de Manet.  

Entre eu, você
e o Mallarmé de Manet,
o grave silêncio
das folhas em branco
grava o momento preciso
que vejo e repito
em um olhar dividido
entre o tempo e além,
como se o não dito
super evidente
roubasse os sentidos
e nos deixasse reféns
de um perplexo absurdo.

Entre eu e você,
O Mallarmé de Manet.
 

Com o tempo, 
a planta veste a muda, 
verte a seiva, 
espalha sua palha 
em ramos, 
e as raízes garimpam 
enquanto as folhas dançam.   

Com o tempo, 
a verdade fica verde, 
subverte as pedras 
e devolve 
a única via possível 
ao horizonte de possibilidades 
em flores.

Com o tempo,
a planta veste a muda,
verte a seiva,
espalha sua palha
em ramos,
e as raízes garimpam
enquanto as folhas dançam.  

Com o tempo,
a verdade fica verde,
subverte as pedras
e devolve
a única via possível
ao horizonte de possibilidades
em flores.

Um brinde entre amigos

Chamava-se Renato. Conheci-o no terminal rodoviário de São Paulo.
Ele me olhou de relance, e eu vi imediatamente que ali havia uma pessoa além do olhar.
Esperávamos o ônibus para o mesmo destino, mas em horários diferentes. O meu partiria antes.
Ele estudava Engenharia Florestal no “Fundão”, a Federal Rural do Rio de Janeiro. Também trabalhava em um restaurante natural no Rio, praticava capoeira e amava o montanhismo. Voltava para passar uns dias na casa dos pais.
Trocamos telefones; ele ligou no dia seguinte. Conversamos muito e trocamos endereços.
Dias depois, ele apareceu na minha casa antes do almoço, lindo como um raio de sol! Foi despedir-se e se certificar de que não nos perderíamos um do outro.
Logo começamos uma correspondência que durou uns três anos.
Entre as cartas, algumas visitas.
Na primeira das visitas que fiz a ele no Rio, levei mais três pessoas, que ele hospedou em seu apartamento da Rua Gago Coutinho com a alegria de quem recebe os melhores amigos.
Em cada encontro esporádico, aprendia algo. Ele me ensinou coisas muito práticas, algumas inusitadas e outras intangíveis como: assar um pão, pegar carona de avião e entender o que há de melhor na miserável espécie humana.
Um dia combinamos uma expedição à Agulha do Itacolomi. Eu, quase sem experiência em alpinismo, não fazia ideia do que me esperava: um granito dos mais difíceis de escalar! Como se não bastasse a minha falta de técnica e de vocação para a escalada, os organizadores da expedição eram macrobióticos, o que significava que iríamos nos alimentar basicamente de arroz integral e bardana! Em dois dias na montanha, acabei brigando feio com o pessoal da expedição e com Renato.
Nos separamos ali mesmo. Fui embora sozinha e nunca mais nos vimos.
Na última carta que me escreveu, ele disse que um dia iríamos nos sentar em torno de uma mesa para beber um vinho, para nos lembrarmos daquilo e para rirmos de tudo. Nunca me esqueci desse encontro sem data marcada. Achei, pois, que já era mais do que tempo de degustar aquele vinho e contemplar o caminho que fizemos do Itacolomi até aqui! Procurei no Google pelo nome e sobrenome. Encontrei fotos dele do tempo da graduação. Nenhuma foto recente. Continuei procurando e não demorei a encontrar a notícia fatídica do seu falecimento em agosto de 1993. A nota dizia que ele estava de férias com a esposa na Serra da Bocaina. Tomaram um banho de cachoeira e voltavam para a pousada onde estavam hospedados quando ele desmaiou ao volante, vítima de aneurisma cerebral e infarto fulminante simultâneos. 
Renato, que era um príncipe, foi-se sem despedidas e sem provar o vinho que redimiria a nossa amizade.
A ele levanto um brinde imaginário e bebo as palavras que não dissemos.
 

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O mundo que inventamos engana os nobres ipês fingindo primaveras para logo desmentir-se em súbito inverno  recorrente. As árvores vertendo flores acenderam o sol da tarde e improvisaram um tapete quase displicentes,   desdenhando o asfalto e o desenho das rodas, rotas previsíveis antes invisíveis, agora reveladas na rua. 

O mundo que inventamos
engana os nobres ipês
fingindo primaveras
para logo desmentir-se
em súbito inverno
recorrente.
As árvores vertendo flores
acenderam o sol da tarde
e improvisaram um tapete
quase displicentes, 
desdenhando
o asfalto e o desenho
das rodas, rotas previsíveis
antes invisíveis,
agora reveladas
na rua.